Um homem de 14 mil anos, num corpo de 35.
Uma sala.
Uma conversa entre amigos.
Que me fez pensar, como psicóloga, nas angústias que aparecem diariamente nos consultórios:
O deprimido preso a fantasmas do passado.
O ansioso que treme diante de um futuro incerto.
Incapazes de respirar o ar puro do presente.
O que, por medo da rejeição social, veste máscaras, na esperança de ser aceito.
O que se agarra a seu “projeto de imortalidade”,
pra tentar dar sentido à sua vida.
No filme “O Homem da Terra”, John Oldman vive o "Instante”.
Para ele, o sentido da vida está na capacidade de "desaprender" o passado, para ocupar plenamente o presente.
A cada dez anos ele muda de nome e vida, mas está cansado e se pergunta:
“Se dessa vez eu tirar minha máscara, meus amigos vão me aceitar como sou?”
Convidei Heidegger, Winnicott e Ernest Becker para essa conversa.
Vamos pensar juntos em formas de usar seus ensinamentos no dia-a-dia?
O que um Cro-Magnon diz à psicologia sobre o sofrimento humano:
ANSIEDADE, DEPRESSÃO E O TEMPO
Entre arrependimentos do passado e medo do futuro, muita gente simplesmente não consegue viver a própria vida no aqui-agora.
No filme, o tempo é definido como a "sensação subjetiva de se tornar o que somos em vez do que estávamos um nanossegundo atrás".
Como ondas no oceano, só existimos no movimento desse devir constante, o que o filósofo Heidegger chama de "movimento extático": existir é estar sempre se projetando no amanhã enquanto carregamos, no hoje, o peso de quem fomos ontem.
Para Heidegger, a vida real não acontece no tempo do relógio, mas no "Instante": o momento da decisão onde o passado e o futuro se encontram para abrir uma nova possibilidade de ser. John (o homem de 14 mil anos) personifica esse conceito a cada dez anos quando decide partir; ele realiza um "instante de decisão" ao retomar sua história milenar para escolher quem se tornará em uma nova identidade.
Essa trajetória nos ensina que a identidade é uma constante desaprendizagem. Para estar no presente de forma autêntica, precisamos abandonar as "cascas" do passado, aceitando que "não se pode voltar para casa", pois o mundo físico e social de antes (como as tundras da era glacial e seus parentes Cro-magnon) deixou de existir.
Na clínica, é cada vez mais comum casos onde há dificuldade de viver no presente. O sofrimento muitas vezes nasce de estar preso a um passado que já passou ou em um futuro que ainda não chegou.
AS MÁSCARAS DE SOBREVIVÊNCIA E MEDO DE REJEIÇÃO
Para sobreviver em uma sociedade que não aceitaria alguém que não envelhece, John muda de nome e de vida a cada dez anos.
Ele assume o que Winnicott chamava de Falso Self: máscaras sociais para proteger sua verdade de um ambiente que não o aceitaria.
O problema é que, ao fazer isso, ele sacrifica conexões autênticas. É uma vida solitária, e ele está cansado.
O filme é o momento em que John se cansa da máscara e tenta ser vulnerável.
E então, se pergunta: Se eu tirar minha máscara, meus amigos vão me aceitar como sou?
Muita gente aprende desde cedo a esconder emoções, agradar o tempo inteiro ou se adaptar ao que os outros esperam.
E você? Quantas versões de si mesmo criou para ser aceito?
Na psicoterapia, trabalhamos para que você possa, finalmente, deixar a máscara cair e abraçar sua autenticidade.
A RAIZ DA CRISE EXISTENCIAL
Dr. Will (o psiquiatra do grupo) diz: "Nós morreremos, você viverá. Você vai ao meu funeral, John? ... Nós não pedimos para ouvir isso. Mas se fosse verdade, há algum de nós que não sinta inveja? Talvez mesmo uma pontada de ódio? Imagina como nos sentimos?"
John causa fúria nos amigos ao revelar sua imortalidade. Por quê?
Ernest Becker explica que o ser humano é um animal "hiperansioso". Para não enlouquecer com a certeza de que somos "comida de vermes", criamos "projetos de heroísmo" e assim passamos a sentir que somos eternos. É o que ele chama de "mentira vital".
Um dos projetos de heroísmo (também conhecido como projeto de imortalidade) mais conhecido é a religião, que oferece à pessoa uma promessa de vitória sobre a morte física, dizendo que ela tem um destino espiritual.
John diz: "O céu e o inferno foram vendidos de maneira a que os padres pudessem mandar através da sedução e terror, para salvarem nossas almas que nunca estiveram em perigo." Ao que Edith (a literata cristã do grupo) responde: "Você acha que a religião é só isso... vender esperança e sobrevivência?"
Outros projetos de heroísmo são os filhos (se perpetuar através de seus descendentes), o legado profissional (deixar sua "marca" duradoura no mundo) e também a ciência ("vencer" a natureza e a finitude pela acumulação de conhecimento).
John quebra essa armadura que protege seus amigos do medo da morte.
Para Becker, quando alguém ameaça o nosso projeto de imortalidade, ele não está apenas questionando uma ideia; está expondo a nossa finitude.
Na terapia, olhamos para essas defesas: o que você está sustentando com tanta força para não ter que olhar para os seus próprios medos?
O LUTO E A MEMÓRIA SELETIVA
John descreve a experiência de ver pessoas amadas morrerem enquanto ele permanece vivo como “ondas” que sobem e descem. O acúmulo de perdas o obriga a "seguir em frente" para não ser consumido pelo luto de 14 mil anos.
Às vezes, nossa mente faz o mesmo: bloqueia traumas para que possamos continuar caminhando. Mas carregamos o peso do que foi silenciado, e o luto não elaborado acaba se tornando um fardo solitário, que continua aparecendo.
MECANISMOS DE DEFESA: A FANTASIA COMO PROTEÇÃO AO TRAUMA
O psiquiatra Will Gruber tenta rotular John com um "distúrbio grave". Para ele, toda a história de imortalidade seria uma fantasia criada para proteger John de algum trauma profundo. Um sinal desse trauma seria o fato de John não ter lembranças claras de seu pai.
O psiquiatra compara John a pessoas com delírios de grandeza ou messiânicos, que acreditam ser figuras como Napoleão ou Jesus, sugerindo que delírio teria sido a única forma que John encontrou para não entrar em colapso.
Nossa mente muitas vezes cria formas de proteção para suportar dores que ainda não conseguimos processar. Na terapia, muitas vezes o trabalho não é destruir essas defesas. É entender por que elas precisaram existir.
A INCOMPLETUDE E A BUSCA PELA HOMEOSTASE PSÍQUICA
No final do filme, o psiquiatra exige que John admita que tudo era mentira para oferecer "fechamento" aos amigos.
Como explica a Gestalt-terapia, o ser humano tem dificuldade de tolerar aquilo que permanece aberto.
Precisamos completar "figuras abertas" para restaurar nosso equilíbrio psíquico.
Mas nem tudo na vida pode ser completamente explicado ou resolvido.
Saúde mental não significa ter todas as respostas, mas conseguir suportar algumas dúvidas sem entrar em colapso.